A literatura variando de temperatura – Ignácio de Loyola Brandão

Não! Eu não me lembrava daquela jovem que estava sentada na primeira fila durante a palestra que fiz em maio de 1977 em Teresina, levado pelo Cineas Santos, homem a quem a literatura brasileira deve uma estátua. Nem poderia imaginar que nos encontraríamos no futuro e ela me daria enorme emoção. Mas antes de chegar a ela, viajemos. Aconteceu assim: desembarcado da Grécia, troquei de mala e segui para Canoas, no Rio Grande do Sul. Sem tempo de me preocupar com fusos horários. Afinal, o que são seis horas mais, seis menos?

Saí com chuvarada de São Paulo e cheguei a Canoas com céu límpido e uma temperatura de zero grau. Para a 29.ª Feira de Livros, que colocou em pauta 300 eventos entre palestras, oficinas, shows, lançamentos. Perceberam que são quase 30 feiras só naquela cidade? E eu não sabia. A cada dia descubro que o movimento é cada vez maior em relação à literatura e formação de leitor. Que há gente se movendo. E como. Falei para uma plateia de jovens na faixa dos 15 ou 16 anos. No dia seguinte, saí de um Rio Grande do Sul com 2 graus negativos, voltei a São Paulo, onde dei ainda com muita água e 12 graus. Foi tempo de refazer a mala e subir para Teresina, onde me esperavam as comemorações para o 10.º Salipi, o Salão Literário do Piauí, definitivamente integrado à geografia cultural brasileira.

Em Teresina me vi envolvido numa temperatura de 35 graus, e estava ameno, confesso. Quem conhece a cidade sabe o que digo. Escritor que vive on the road (ou nos céus) tem de ser resistente, ter físico, tomar vitamina C, habituar-se a mudanças súbitas – o País é grande. Porque de lá segui para Recife, onde estive ontem para a Mostra Sesc de Literatura Contemporânea. Recebi 31 graus sobre a pele.

O Salipi, em Teresina, deixou o antigo centro de convenções e ganhou um espaço cultural, histórico e aconchegante, o Teatro 4 de Setembro. Na abertura, uma apresentação de nos fazer chorar, o Coral Nova Geração, formado por cegos.

O Salão este ano foi dedicado a Francisco Pereira da Silva, dramaturgo, cronista e crítico teatral, cuja obra foi restaurada por Virgilio Costa. Estava tomando um suco de bacuri do Abrahão, instituição em Teresina, quando Virgilio se aproximou. Surpresa. Não só é amigo de uma araraquarense, a Adriana que comanda a livraria Monteiro Lobato em minha cidade, como ainda é filho de Odylo Costa, filho, jornalista a quem fui muito ligado, me ensinou tanto nos tempos em que trabalhei na Abril. Virgilio editou as Obras Completas do pai, um bom poeta, que andava esquecido. Acasos?

Pelo Salipi passaram Cristovão Tezza, José Castello, Sergio Sant’Anna, Salvador Maranhão, Ivan Proença, Aleilton Fonseca, Marcelino Freire, Isabel Ferreira, de Angola, Ivo Machado, poeta português. A presença da cubana Roxana Pineda Labairo estava quase certa, mas a embaixada brasileira em Havana estava embaçando, afinal, parece que nossas relações exteriores são “cubanófilas”, se Fidel e Raúl não querem, nós não queremos… Homenageados por serem centenários foram Jorge Amado, Luiz Gonzaga e Nelson Rodrigues. Sonia Rodrigues estava lá com um livro essencial, Nelson por Ele Mesmo. Viajamos juntos, ela cultua e cultiva a memória do pai, cuja obra foi resgatada, assim como sua biografia. Nelson, quando trabalhei na Última Hora, era visto de vez em quando na redação em São Paulo, eu o contemplava como um ídolo.

Na segunda-feira passada, de manhã, fui para a Assembleia Legislativa. Estava inquieto, essas coisas mexem comigo. Naquele dia me tornei Cidadão Piauiense. Na hora tive uma notícia triste, Wellington Soares, poeta, fundador da Fundação Dom Quixote, um dos idealizadores e promotores do Salipi, deixa este ano a organização. Wellington sempre foi ponta de lança da cultura do seu Estado. Mas todo mundo quer que ele fique! Com Wellington e sua mulher Lucíola, nome de José de Alencar, descobri os autores, viajei pelo Estado, conheci o Delta do Parnaíba, a carne de sol do tio João, o suco do Abrahão, a Casa Meio Norte, a Escola Dom Barreto, primeira colocada no Enem de 2009, para surpresa do Brasil. Fui à escola, caiu-me o queixo com o nível. Tenho falado sobre tudo isso aqui, no Caderno 2, ao longo destes anos.

Duzentos alunos da Casa Meio Norte estavam na plateia, cantaram para mim. Aqueles jovens que leem cerca de 20 livros por mês, fato inacreditável, estavam ali para abraçar um escritor. Depois, juntos, tomamos cajuína e comemos petiscos piauienses.

A ideia de me dar o título foi da deputada Margarete Coelho. “Mas, a aceitação foi unânime”, ressaltou ela num curto discurso, nada oficial, solto, gostoso. Para terminar a surpresa, Margarete me revelou: “Naquela noite em que você veio pela primeira vez ao Piauí, em maio de 1977, para falar diante de 700 alunos, do romance Zero, recém-proibido, e comentou literatura, cultura, política, vida, amor, liberdade, havia uma jovem na primeira fila, de olhos bem abertos e ouvidos atentos. Ela estava bem à sua frente. Era eu, fui eu, sou eu. Hoje nos reencontramos, agora como conterrâneos”. Acasos?

Estadão

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