As mil e duas faces de Drummond

Publicado no blog de Ancelmo Gois

Uma das frases de Carlos Drummond de Andrade, em destaque na exposição em Paraty

Carlos Drummond de Andrade era tão grande, mas tão grande, que ele se classificava como um “pequeno escritor, um escritor de jornais e de poesia”. Humildade para dar e vender, artigo em falta nas prateleiras da literatura de hoje. A alma de Drummond, que tanto transborda em seus poemas e crônicas, está em cartaz agora na exposição Faces de Drummond, na Casa de Cultura de Paraty. É como se fosse um grande álbum de família do poeta, com originais datilografados, fotografias, documentos de identidade e poemas gravados pelo poeta maior, o homenageado deste ano da 10a Flip por causa de seus 110 anos de nascimento.

Drummond era tão grande que, relembra Ancelmo Gois, colaborou com a chapa de jornalistas que se uniram para derrotar um antigo pelego no Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio, em 1980.

– Como havia o risco de a chapa ter alguns nomes vetados pela Delegacia Regional do Trabalho, por terem sido comunistas, convidamos o Drummond para participar da chapa. Ele entrou como conselheiro e nos ajudou a resgatar o sindicato da categoria — conta Ancelmo, depois de ver a reprodução da carteira da Associação Brasileira de Imprensa, uma das ilustrações desse texto.

Drummond era tão engraçado que arrancou gargalhadas de Leda Nagle, então repórter da Globo, em longa entrevista, em 1981, aos 78 anos. Algumas tiradas do poeta nessa entrevista, cujo vídeo pode ser visto num dos monitores da exposição:

- “Não tenho ideia de que a vida passou para mim”

- “Minas é o paraíso dos loucos”

- “Ruim quando o louco é eleito governador, presidente da República…”

- “As aposentadorias que o governo me dá são uma brincadeira”

- “Eu seria péssimo motorista; atropelaria todo mundo”

- “Gosto muito de jornal, mas fui atraído pela burocracia”

- “Sou bastante telefoneiro, se é que existe essa palavra. Gosto de ter um telefone no escritório. Dali falo com o mundo inteiro”

Com alegria de dar gosto, Drummond cita os grandes amigos de sua vida: Milton Campos, Abigair Renault, Emílio Moura, Ciro dos Anjos, Alberto Campos, João Alphonsus e Pedro Nava.

Um texto de redação do Drummond menino

A exposição descreve a trajetória do menino que foi expulso do Colégio Anchieta por “insubordinação mental”, virou poeta, jornalista, burocrata do Ministério da Educação. O poema de Drummond sempre foi sagaz. Em 1925, ele homenageava as secretárias que tinham na parede da repartição “retratos humorísticos”.

O Drummond jornalista foi redator-chefe do “Diário de Minas”, entre 1926 e 1929, e cronista do “Jornal do Brasil”, em sua época áurea (quantas crônicas viraram recortes de jornal em arquivos de família). O Drummond militante escreveu na “Tribuna Popular” crônica convocando a população a ir a comício de Luiz Carlos Prestes. O Drummond amante escreveu poemas eróticos, de enrubescer virgens. O Drummond família lançou livro com a filha, Julieta. O Drummond ator está na gravação de poemas como “No meio do caminho tinha uma pedra”, criticado por Gondim da Fonseca, num texto em destaque na exposição:

“O sr. Carlos Drummond é difícil. Por mais que esprema o cérebro, não sai nada. Vê uma pedra no meio do caminho e fica repetindo a coisa feito papagaio”.

Em 17 de agosto de 1987, Drummond saiu da vida para entrar para a história da cultura brasileira. Foi manchete do “Jornal Nacional”, na voz de Cid Moreira, em reportagem antológica de Sandra Moreira. O vídeo está lá. Um ano depois sua efígie ilustrava a nota de cinquenta cruzados novos, em circulação entre 1988 e 1990.

Cid Moreira dá a manchete da morte de Drummond, no Jornal Nacional de 17 de agosto de 1987

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